Autor: Leandro R. Tessler
Fonte: Cultura Científica
O ano era 1845. A Mecânica Quântica ainda não tinha sido inventada, homeopatia era moda e a prática da acupuntura era restrita à China. Em Nova Iorque, o inventor Rufus Porter fundou a Scientific American, “a palavra da indústria e da empresa, e o jornal das melhorias mecânicas e outras”. De lá para cá a revista mudou de dono várias vezes, mas construiu, especialmente a partir de 1900, a reputação de traduzir para o público interessado os avanços da ciência e da tecnologia. E isso foi feito com extremo cuidado. A partir de 1948 os donos da revista decidiram que a maioria dos artigos deveria ser escrita pelas pessoas que fizeram o trabalho sobre o qual estão escrevendo, para que os artigos sobre novas descobertas aparecessem rapidamente, com maior exatidão e autoridade. Isso continua sendo feito até hoje. Ao longo de sua história, não menos que 140 ganhadores do prêmio Nobel escreveram para a revista, a maioria antes de receber o prêmio.
Eu aprendi muito sobre ciência assinando a Scientific American na minha adolescência. Para dizer a verdade, o nível dos artigos fora da minha área de interesse era alto demais e eu tinha dificuldade para entendê-los. Mesmo assim eu tinha certeza da qualidade e do rigor de tudo o que era (é ainda) publicado ali.
Hoje a Scientific American é publicada em 14 línguas e lida em 30 países. Em francês ela se chama Pour la Science. Em espanhol é Investigación y Ciencia. Aqui ela se chama Scientific American Brasil e é editada pela Duetto Editorial.
Recebi com muita surpresa os comentários dos leitores Décio Legno e Solvat na postagem anterior deste blog. Segundo eles na página 17 da edição nº 119 (ano 10) da versão impressa da Scientific American Brasil, num artigo na seção “Saude” intitulado “A Eficiência Questionada da Homeopatia”, de autoria de Nina Ximenes, havia a seguinte afirmação: “…a homeopatia não se relaciona com a química, mas com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados…“. Comentarei essa pérola mais adiante. Eu estava muito ocupado nesses dias e não consegui comprar a revista para conferir. Achei que devia ser algum engano. A Scientific American não publicaria uma bobagem desse tamanho, no Brasil ou em qualquer lugar. Alguns dias depois o ótimo Never Asked Questions do impagável Roberto Takata (quem duvida leia um dos quase 65 mil tweets de sua lavra @rmtakata) apresentou uma resenha dos últimos fatos a respeito: Não somente o texto tinha sido publicado como causou furor no respeitadíssimo Science-Based Medicine e a editora chefe da Scientific American americana, Mariette DiChristina desautorizou publicamente o editor da Scientific American Brasil em seu Twitter.
Podia piorar: dia 30/3 o editor da Scientific American Brasil, Ulisses Capozzoli publicou um texto no blog da revista chamado “Ciência e Falsa Ciência” no qual discute a recente decisão do Tribunal Federal da 1ª Região reservando aos médicos a prática da acupuntura no Brasil. No texto ele implicitamente afirma que a acupuntura tem efeitos terapêuticos. Os que como eu sempre afirmaram que espetar agulhas em pontos na pele ao longo de meridianos para corrigir o fluxo de Qi não tem base científica alguma são tratados como fundamentalistas limitados e limitantes. É como se a decisão do Tribunal mudasse a realidade e portanto estaríamos redondamente errados ao dizer que acupuntura não é ciência. Em todos os testes já feitos com algum rigor a acupuntura nunca apresentou resultado melhor que o placebo. Basta conferir na maior e mais reputada base de dados médicos do mundo, a Colaboração Cochrane. Ali há metaestudos sobre acupuntura aplicada a mais de 20 condições de saúde. O efeito em todas é comparável ao placebo. Portanto, nada impede que pessoas se submetam a tratamentos por acupuntura. No entanto, fico um pouco preocupado quando a reputação da Scientific American , construída rigorosamente ao longo de 165 anos, é usada para tratar como científicas práticas notadamente pseudocientíficas.
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