O que justifica protestar contra a Homeopatia? [#ten23]

Autor: Homero Ottoni (membro emérito da LiHS)

Comentários: Pedro Almeida

Fonte: Radiação de Fundo

A atualidade da Homeopatia é verificada nestes dois frascos do século XIX de Hepar Sulph. Nada mudou de lá pra cá, nem na técnica nem no efeito.

Muitas críticas ao movimento para demonstrar a ineficácia da homeopatia parecem estar centrados no “direito de acreditar” das pessoas, e no fato de céticos (e a ciência) serem “chatos estraga prazeres”. Frases como “se não faz mal algum, porque a gritaria?” ou “homeopatia pode ser inócua, mas faz bem pra algumas pessoas que estão gastando o seu próprio dinheiro com isso”. Ambas as frases retiradas de comentários feitos em notícias que criticam a homeopatia, entre muitas outras de mesmo teor.

Mas nada pode estar mais longe da verdade. E nem é difícil entender isso.

Primeiramente, homeopatia não é uma “crença”, mas um conjunto de alegações, que formam uma hipótese concreta, material, que pode ser testada. Não existem movimentos céticos, ou científicos, para demonstrar, por exemplo, que as “pílulas do Frei Galvão” não funcionam. O “mecanismo de ação” das pílulas é claramente mágico, místico, sobrenatural, e é uma questão de fé. É perigoso, sim, como a homeopatia, e ambos envolvem a possibilidade de deixar tratamentos reais, mas é fé, crença, e todos tem direito a praticá-las, não importa o quão irreais ou absurdas. Podemos alertar, mas ninguém realmente criaria um “estudo controlado” para testar as bolinhas de papel.

Superstições diversas, simpatias, rezas, etc, tudo é mágica, e é direito pessoal acreditar ou não. Também não há risco (não muito) de sistemas de saúde implementarem “simpatias” nos postos de saúde.

Segundo, se não fosse a teimosia cega, a rebeldia adolescente contra “o status quo“, que envolve os “malvados fabricantes de remédios maléficos alopatas”, seria facilmente compreendida a questão “óleo de cobra” da homeopatia.

Vamos tentar um experimento mental, para esclarecer: remédios “alopáticos” (já foi comentado aqui (http://bulevoador.haaan.com/2011/02/01/alopatia-e-um-xingamento/) que este termo é uma falácia) falsificados estão sendo vendidos, digamos para tratar câncer e como anticoncepcionais. Ao tomar estes remédios, as pessoas são prejudicadas, com a recidiva do câncer ou engravidando sem desejar.

Alertar as pessoas (e eventualmente prender os responsáveis), seria violar o “direito de acreditar” das pessoas? Seriam os céticos “estraga prazeres” ao denunciar os remédios falsificados?

Não, claro, todos concordamos nisso, mas já posso ouvir os defensores da homeopatia, e que costumam usar os argumentos acima apresentado sobre o “direito de acreditar”, gritando que “remédios falsificados é algo bem diferente de homeopatia!”. Mas como seriam? Ambos são vendidos, ambos prometem tratar algo, e ambos não o fazem. Mesmo com a honestidade e boa fé de certos homeopatas com seus preparados, também existem os farmacêuticos que vendem “alopáticos” falsificados sem saberem que o produto é falso, e nem por isso defendemos esses medicamentos. [Como já diziam, de boas intenções, o inferno está cheio]

Por favor, não estou, no momento, contra-argumentando a quem acredita que homeopatiafunciona, estou argumentando para as pessoas que defendem o “direito de acreditar” na homeopatia, independente desta funcionar ou não, muitas vezes sabendo que não funciona, argumentando para pessoas que alegam que “céticos são estraga prazeres, o que eles tem com isso, se a homeopatia funciona ou não, deixem as pessoas escolher e crer no que quiserem“.

Estes pretensos argumentos servem tanto a homeopatia, quanto a remédios falsificados, não? Ambos custam algo, ambos prometem curar ou tratar algo, e ambos não o fazem. Se as pessoas (os outros, desconhecidos; parentes e amigos não, estes merecem o melhor tratamento possível, sempre) desejam usar medicamentos que não têm eficácia, mas as fazem felizes e satisfeitas, por que não?

Mas vamos melhorar o experimento mental, e supor que seja mesmo diferente, afinal a maioria dos homeopatas está de boa fé, e acredita que o que vende vai ter algum efeito. Se quem aplica, e quem recebe, pensam que funciona, quem pensam serem os cientistas para atrapalhar essa relação mágica?

Então eis o novo quadro do experimento: remédios HOMEOPÁTICOS falsos estão sendo vendidos. Fabricantes desonestos estão colocando apenas água destilada, e fazendo bolinhas de farinha, e vendendo como se homeopatia fosse.

O que devemos fazer? Denunciar? Mas essas bolinhas e água não causam mal algum. Não tem efeitos colaterais. Não custam muito, são baratinhas. E muitas pessoas que as tomam, se sentem realmente melhores, relatam curas e efeitos positivos, porque tiraríamos isso delas?

O que diferencia, afinal, o remédio homeopático real do falso? A desonestidade de quem fabrica? Alguém se deu ao trabalho de perguntar a Boiron (multinacional francesa, gigante da indústria homeopática) porque ela jamais criou um único teste de validação para seus produtos? Será que ela SABE que não obterá resultados, e pensa que é melhor continuar a vender seu “óleo de cobra” para os incautos?

E temos aqui outro problema, que ajuda a esclarecer a natureza da homeopatia: não há forma de determinar se um medicamento homeopático é falso ou verdadeiro. Devido à química deste universo, a diluição extrema dos medicamentos homeopáticos torna impossível saber se uma bolinha de farinha, ou gota de água, vem de uma produção real homeopática, ou foi falsificada, e é “apenas” farinha.

A única garantia, é a palavra de quem produz, e vende, os remédios. Interessante, não? Um comerciante ou fabricante pode apresentar documentos que demonstrem que ele adquiriu o pato, ou o fígado do pato, mas não há forma de determinar se este foi usado para produzir os frascos de remédios, que geraram 2 milhões de dólares em vendas.

Se eu resolver envasar água destilada e vender como homeopatia, não apenas não se poderá provar que o que vendo NÃO é homeopatia, como provavelmente, assim como demonstram os estudos feitos com placebos, muita gente vai “melhorar” com meus “remédios” [prefiro chamar de preparados do que eleger status de remédio a isto]. Como devemos proceder, como o estado deve proceder, com minha ação?  [Neste caso, má fé ficou indistinguível de boa fé]

Deixar a cargo do “direito de acreditar” das pessoas, e pronto, ou denunciar e proibir o que faço? Nesse caso, como proibir o que faço, se não se pode determinar se o que faço é, ou não, homeopatia? [Além deste “tratamento” ser permitido pelo Conselho Federal de Medicina]

Antes que comece a gritaria, sim, eu sei como determinar se um medicamento é real ou não, mesmo que não se possa determinar se é falso: eficácia. Testar em pessoas, e anotar os resultados. Grupos de controle, grupos de placebo, duplo cego, etc, etc, etc.

Deve estar claro a partir destes experimentos mentais que os argumentos dos que, entendendo que a homeopatia não tem efeitos detectáveis a defendem com base no “direito de acreditar” e no pretenso “modo estraga prazeres” dos cientistas, não se sustentam.

Não queremos “destruir” a homeopatia, queremos esclarecer. Se o que pedimos, resultados, forem produzidos, ótimo, a homeopatia deixa de ser “alternativa” e passa a ser medicina, de verdade. Basta isso.

Mas enquanto todos os experimentos confiáveis, pesquisas, e testes, resultarem negativamente, defender que devem ser vendidos em farmácias, e fornecidos na rede pública, equivale a permitir medicamentos falsos com os mesmos argumentos.

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