Homeopatia contra dengue? NÃO!

Autor: Alex Rodrigues

Com informações do Conselho de Mídia da LiHS

No último dia 25 de maio foi sancionada em Natal-RN, pela prefeita Micarla de Sousa, a Lei Municipal Nº.  6.252/2011, de autoria do vereador e presidente da Câmara Municipal de Natal, Edivan Martins. Tal lei, segundo sua ementa e seu art. 1º “Autoriza o Poder Executivo a realizar estudos e pesquisas no sentido de adotar medicação homeopática, no combate e prevenção de dengue em Natal“.

Inicialmente, podemos achar que a lei apenas autoriza “estudos e pesquisas”. Todavia, não é bem assim. Na ementa da lei há um complemento ao que está escrito acima, o muito usado “e dá outras providências”.

Bom, vejamos o que são as outras providências.

Art. 1º – Autoriza o Poder Executivo a realizar estudos e pesquisas no sentido de adotar medicação homeopática, no combate e prevenção de dengue em Natal.

I – A medicação a que se refere o artigo 1º poderá ser ministrada nos bairros que apresentem os maiores índices de infestação da doença ou nas áreas onde a equipe técnica da Secretaria Municipal de Saúde definir como prioritárias ou de risco iminente para proliferação de casos;

II – A aplicação do medicamento será executada pelas unidades de saúde, na dosagem prescrita por profissional competente;

III – A Secretaria de Saúde do Município de Natal,  através de uma equipe multidisciplinar, fará o acompanhamento e monitoramento, com as notificações necessárias, dos usuários atendidos pela medicação a que se refere o artigo 1ª desta Lei.

Ah! Então não são apenas “estudos e pesquisas”, mas sim a efetiva utilização de preparados homeopáticos (me recuso a chamar de “medicamentos”) para o combate e a prevenção da dengue.

Antes de mais nada, quero salientar que o autor da lei me parece estar extremamente mal assessorado. Como assim “prevenção da dengue”? Ora, não é preciso um conhecimento técnico muito grande para saber que a prevenção nesse caso é uma sóimpedir a proliferação do vetor transmissor do vírus. Assim, a não ser que os defensores da homeopatia tenham inventado mais essa ação mágica para as suas preparações ultradiluídas (seriam bolinhas de açúcar que evitam o acúmulo de água parada ou algum poderoso larvicida 30C?), essa alegação não faz o menor sentido. Por outro lado, isso não foge muito do restante das alegações dos homeopatas, pois elas também não fazem sentido.

Vamos passar ao combate da dengue.

O médico infectologista Henio Lacerda se pronunciou por um e-mail encaminhado à imprensa, afirmando que a os infectologistas de Natal estão preocupado com a utilização de medicação homeopática no combate e prevenção de dengue. Esse e-mail foi publicado na íntegra pela Tribuna do Norte; reproduzo-o abaixo com destaques meus:

A imprensa de Natal, é com extrema preocupação que os infectologistas de Natal viram a publicação da Lei LEI Nº.  6.252, DE 25 DE MAIO DE 2011 que autoriza o Poder Executivo Municipal a realizar estudos e pesquisas no sentido de adotar medicação homeopática (Eupatorium perfoliatum, Phosphorus e Crotalus horridus), no combate e prevenção de dengue em Natal.

A literatura mundial não dá respaldo nenhum sobre o uso desses compostos homeopáticos no tratamento da Dengue. Só existem dois trabalhos sem metodologia cientifica e que não traz evidencia dos efeitos benéficos do uso desses compostos. Não segue as fases clinicas (leiahttp://www.roche.pt/portugal/index.cfm/investigacao/) necessárias para colocar um produto em uso. Inclusive, esse medicamento já foi abandonado em São José do Rio Preto por falta de comprovação cientifica
(leia
http://www.diarioweb.com.br/novoportal/Noticias/Saud/5724,,Saude+de+Rio+Preto+abandona+homeopatia+contra+a+dengue.aspx) Portanto, a prefeitura, a SMS,nem os médicos da SMS, não podem realizar essa “pesquisa” com seres humanos sem antes passar por todas as etapas envolvidas na produção de um medicamento, já que isso não foi feito pelo autor do composto. O parecer inicial do COMITÊ de VIROLOGIA CLINICA DA Sociedade Brasileira de Infectologia mostra-se contrário a qualquer tipo de medicamento que não tenha evidencia científica de sua eficácia. Estaremos emitindo parecer e ser enviado as secretarias de saúde.

Abraços

Henio Lacerda
Médico Infectologista.
SRNI

O Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte (CREMERN), em nota emitida em nome de seu presidente, Jeancarlo Cavalcante, afirmou que a entidade é totalmente contra o uso desse tipo de preparado para casos de dengue. Segundo informações do Diário de Natal, o CREMERN pretende acionar o seu setor jurídico para encontrar meios de tornar a lei inaplicável.

Quem também se manifestou em entrevista ao Diário de Natal contra o uso da homeopatia para tratamento da dengue foi o professor do Departamento de Medicina Clínica da UFRN, Munir Massud, afirmando que “Não foram feitos testes. Não há fundamentação científica, a menos que se queira trabalhar sem fundamentação científica, o que é um absurdo”.

Os três médicos citados acima (e a maioria esmagadora da comunidade científica, diga-se de passagem) concordam que qualquer tratamento diferente do que vem sendo aplicado usualmente deve ser testado e aprovado seguindo os passos do método científico moderno.

Jeancarlo Cavalcante disse ainda que “antes de testar em seres humanos, é preciso testar qualquer novo tratamento em massa em animais. Fazer pesquisas em meio a uma epidemia é complicado”, posição mais do que sensata para um profissional que preze pela saúde da população. Hênio Lacerda completa afirmando que “a dengue é uma doença que aflige muitos países no mundo todo. É como se Natal quisesse reinventar um método para tratar a dengue. O tratamento ideal é a hidratação oral ou o soro. E, para os sintomas associados, como dor e febre, com insumos usualmente receitados”.

Mas não se enganem. Esse tipo de embuste homeopático não é exclusividade de Natal ou do estado do Rio Grande do Norte. Como vocês podem notar na figura que ilustra este texto, outras cidades estão percorrendo esse caminho anticientífico (por exemplo, Macaé, litoral do Rio de Janeiro).

Por fim, deixo-os com as palavras do Presidente do CREMERN:

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