A Diferença entre Hahnemann e Darwin

Autor: U. KUTSCHERA

Tradução: Gilson Cirino

Fonte: Céticos: Pseudociências, fraudes e divulgação da ciência

Uma reportagem especial publicada recentemente na Nature argumenta que o famoso Princípio de Similaridades de Hahnemann (“semelhante cura semelhante”), que é a base no tratamento de doenças com agentes extremamente diluídos, vigorosamente sacudidos (as chamadas “potências”), é uma pseudociência (Giles, 2007)). Embora essa conclusão seja verdadeira, temo que esse trabalho, que pode ser visto como uma seqüência de um excelente artigo de revisão sobre homeopatia e física publicado dez anos atrás na Skeptical Inquirer (Park, 1997), não irá convencer todos os leitores da natureza anti-científica dessa medicina alternativa. Entretanto, penso que os seguintes argumentos adicionais devem persuadir todas as pessoas de mente aberta de que a homeopatia é, na verdade, uma charlatanice do século dezoito.

Primeiro, a alegação dos homeopatas de que remédios extremamente diluídos têm um efeito independente da crença do paciente e do praticante foi refutada. Esse argumento é baseado na premissa de que as várias potências podem ser distinguidas uma das outras. Em um estudo quantitativo, foi demonstrado que duas potências específicas, denominadas Natrium muriaticum 30C and Sulphur 30C, as quais se alegam serem bastante ativas e possuírem diferentes propriedades marcantes, foram indistinguíveis por um eminente homeopata. Para a identificação das potências foi permitido ao praticante usar quaisquer métodos disponíveis, sejam clínicos, físicos ou químicos (Roberts, 1989).

Segundo, os homeopatas normalmente argumentam que o princípio de Hahnemann foi corroborado pelo tratamento de animais com remédios homeopáticos. Nesses ensaios, o paciente não humano nem imagina estar recebendo qualquer remédio, desse modo o efeito placebo pode ser descartado. Mas um artigo recente sobre homeopatia na medicina veterinária mostrou que essa alegação popular é falsa (Taylor, 2005).

Terceiro, a homeopatia moderna baseia-se na suposição de que os remédios retêm atividade fisiológica mesmo quando diluídos além do número de Avogadro (veja figura 1), o que significa que não resta nenhuma molécula da substância ativa (“potências altas”, i.e., são “soluções sem soluto”).  Essa “memória da água” ou hipótese de “imprint”, que foi discutida em detalhes por Park (1997), foi recentemente refutada. Usando novas técnicas de espectroscopia, foi demonstrado que a água perde sua “memória” de correlações estruturais no prazo de 50 femtosegundos (um femtosegundo é    10-15 de um segundo), não levando em conta qualquer “informação armazenada” de longo prazo de partículas dissolvidas anteriormente, como é alegado pelos homeopatas (Cowan et al., 2005).

O número (ou constante) de Avogadro é o número de “entidades” (átomos ou moléculas) em um mol (NA = 6,02214179 x 1023 mol-1). Se uma solução armazenada de 1 mol3L-1 de substância (por exemplo, sacarose) é diluída 24 vezes por um fator de 1/10, nenhum soluto restará nessa “solução diluída” (i.e., “D24” é água pura).

Figura 1. Ilustração do número de Avogadro (NA). Uma quantidade definida de sacarose (342,3g)[sucrose] é dissolvida em água pura para formar um volume de 1 litro. Essa solução aquosa contêm cerca de 6,022 x 1023 moléculas de sacarose (NA).

Finalmente, deve ser notado que os fundamentos da homeopatia não mudaram muito nos últimos duzentos anos. Se Hahnemann fosse submetido a um teste sobre homeopatia hoje em dia, ele não deveria ter nenhum problema para responder a maioria das perguntas corretamente. Entretanto, Charles Darwin não teria nenhuma chance de passar em um exame de biologia evolutiva de hoje, porque nossa moderna teoria sintética da evolução biológica se desenvolveu muito além de seu livro clássico Princípios da Descendência com Modificação pela Seleção Natural. Termos como genótipo, fenótipo, mutações de linhas germinativas, etc., eram desconhecidos por Darwin, que usava métodos de sua época. Apesar dessas restrições, ele fez surgirem muitas questões novas e abertas e finalmente tornou-se o fundador de uma nova agenda de pesquisa e disciplina científica (Kutschera and Niklas 2004).

Figura 2. Séries de Diluição. Uma solução concentrada é diluída em série por um fator de 10. Após três etapas, o número de partículas por volume de água cai de 100 para zero (valor médio). De acordo com um dos dogmas da homeopatia clássica, essa “solução sem solutos” é capaz de supostamente exercer um efeito fisiológico positivo sobre os corpos de animais, humanos e plantas.

Em contraste com a biologia evolutiva, a homeopatia é um sistema fechado, dogmático de regras fixas. Além disso, a crença central da homeopatia, “Nada, dissolvido em água, é mais eficaz que água em que nada é dissolvido”, é uma tautologia irracional que carece de qualquer base real (veja a figura 2). A homeopatia deve ser considerada como uma fé estática, quase religiosa que não possui lugar algum dentro de qualquer currículo científico.

Referências

Cowan, M.L., B.D. Bruner, N. Huse, J.R. Dwyer, B. Chugh, E.T.J. Nibbering, T. Elsaesser, and R.J.D. Miller. 2005. Ultrafast memory loss and energy redistribution in the hydrogen bond network of liquid H2O. Nature 434: 199-02.

Giles, J. 2007. Degrees in homeopathy slated as unscientific. Nature 446: 352-53.

Kutschera, U., and K.J. Niklas. 2004. The modern theory of biological evolution: an expanded synthesis. Naturwissenschaften 91: 255-76.

Park, R.L. 1997. Alternative medicine and the laws of physics. Skeptical Inquirer 21 (5): 24-28.

Roberts, T.D.M. 1989. Homeopathic test. Nature 342: 350.

Taylor, N. 2005. Homeopathy in veterinary medicine. Skeptical Intelligencer 8, 15-18.

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