Erro de Avaliação da Sciam Brasil na publicação da nota sobre homeopatia

Conforme noticiado em alguns blogs, por exemplo no O Lado Escuro da Lua, o Bule Voador e neste site do Desafio 10:23, uma nota sobre homeopatia publicada na edição impressa de abril de 2012 da Scientific American Brasil causou certa polêmica.

No dia 05/04, o editor-chefe, Ulisses Capozzoli, publicou no Blog da Sciam Brasil a nota de esclarecimento abaixo. A nota de esclarecimento foi comentada inclusive pela autora Harriet Hall do site Science-Based Medicine.

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Erro de Avaliação

Autor: Ulisses Capozzoli – editor-chefe da Sciam Brasil

Fonte: Blog da Sciam Brasil

Na edição 119, próxima ao Primeiro de Abril, e às vésperas do décimo aniversário de Scientific American Brasil (em junho) cometi um erro de avaliação numa nota sobre homeopatia, publicada na seção Avanços, que quero reconhecer tanto junto aos leitores brasileiros da revista quanto em relação à tradição quase bicentenária da edição americana, a Scientific American.

            A nota em questão está relacionada a um curso na área de homeopatia aplicada à agricultura, oferecido pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) por meio do seu departamento de fitotecnia e, de acordo com as informações, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

            O fato de se tratar de uma universidade de prestígio na área agrícola e de o curso ter patrocínio da principal agência de financiamento à pesquisa científica no Brasil, o CNPq, fizeram com que eu aceitasse e publicasse a nota produzida por uma colaboradora, bióloga, que fez o curso de 10 meses na UFV.

            Esse foi o meu erro de avaliação.

            Se um médico homeopata, dos aproximadamente 15 mil que existem no Brasil, montar um consultório e atender pacientes nesta área, não poderá ser acusado de desvio de conduta ou charlatanismo. Isso porque a homeopatia é legalmente reconhecida aqui como especialidade médica, farmacêutica e mesmo veterinária.

            Essa situação certamente relaxou meu sistema de controle sobre a referida nota e seu conteúdo, o que significa dizer que ajuda a explicar meu erro. Mas, sem dúvida, não o justifica, daí meu pedido de desculpas aos leitores e à edição original da revista.

            Até o final deste ano terei editado 18 números de Scientific American Brasil: 12 edições mensais e outras 6, bimestrais. Preparo todos os textos de cada uma dessas edições, o que significa dizer que leio cada palavra, antes e depois da revisão ortográfica. A revista, como sabem seus leitores, trata de temas nas fronteiras da ciência, com a preocupação de ter linguagem clara, precisa e conceitos inequívocos.

            Quando cometi o erro de avaliação a que me referi há pouco, atropelei o conteúdo conceitual: Scientific American, refletindo talvez a maioria das opiniões no meio científico, entende que homeopatia não é ciência.

            Leitores indignados com minha avaliação enviaram e-mails à redação e abordaram a questão na rede social, o que permitiu que eu me desse conta da falha que havia cometido. Numa madrugada com a Lua alta, quase cheia no céu, e o perfume da dama-da-noite inundando um pequeno jardim me dei conta de que o único reparo ao meu alcance é reconhecer o erro e me desculpar, como estou fazendo, com o apoio do diretor de redação, Janir Hollanda.

            Conforta-me, devo dizer o fato de a história da ciência estar repleta de falhas, algumas talvez mais radicais que a minha, mas cada uma delas devidamente reparada. Cito algumas para pura diversão dos leitores: em 1887 o químico francês Marcellin Berthelot disse que “para a ciência, o mundo de agora em diante não tem mais mistério”. Essa frase, curta e aparentemente objetiva, é considerada uma das mais imbecis de todos os tempos.

            Os canais de Marte, proclamados como de origem artificial pelo astrônomo americano Percival Lowell certamente é de conhecimento quase geral e a mesma coisa pode ser dita em relação à teoria da geração espontânea: a idéia de que ratos nasceriam naturalmente do lixo. A gênese desse conceito remonta a Aristóteles que em seus tratados Da geração dos animais e História dos animais, considera que certos insetos “vêm do orvalho que se precipita sobre as folhas”.

            A fusão a frio foi um fiasco (reproduzido em várias partes do mundo) pelos eletroquímicos Martin Fleischmann e o americano Stanley Pons, em 1989.

            E isso tudo sem falar nas medidas apuradíssimas do tamanho do cérebro humano, mas com interpretações no mínimo controvertidas, feitas pelo cirurgião Frances Paul Broca.

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