Dois textos do blog “DNA Cético” sobre a homeopatia na SciAm Brasil

Autor: Rubens Pazza

Fonte: DNA Cético

Texto 1: O dia em que a Scientific American Brasil falou bem de uma pseudociência

O dia em que a Scientific American Brasil falou bem de uma pseudociência

A publicação de um texto de apologia à homeopatia na revista de divulgação científica Scientific American Brasil causou furor de muitos leitores e demais envolvidos direta ou indiretamente com a luta contra as pseudociências. O Editor, Ulisses Capozzoli reconheceu o erro, mas, e daí?

Uma boa linha do tempo sobre o acontecido está no blog Cultura Científica, do prof. Leandro Tessler. Nele também estão vários links para os blogs que já discutiram todo o assunto extensivamente. Até vou tentar escrever o que ninguém escreveu, mas vai ser difícil. Há excelentes blogs comentando sobre isso neste momento.

O reconhecimento do erro por parte do editor da revista não seguiu apenas os apelos dos leitores. Com o auxílio de alguns brasileiros, o blog Science-Based Medicine publicou o caso da edição de Abril da revista Scientific American Brasil, e expôs o problema à comunidade de língua inglesa. Em pouco tempo, a editora da versão americana, Mariette DiChristina (twitter) ficou sabendo e respondeu ao blog:

“I’m grateful to Tim Farley for letting me know about this post so that I can clear up matters.

Scientific American does _not_ condone the pseudoscience of homeopathy.

Duetto, the company that licenses the right to produce Scientific American in Brazil, is an independent entity; it purchases the right to translate Scientific American’s articles and also to add local stories. I have inquired about this item, and have been told included this article was included because the work is “has support of Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) the main brazilian agency for scientific research.” I do not yet know what that “support” entails–whether it is funded by that agency or whether it means something else.

In any case, this piece clearly should not have been published. I have brought this problem to the attention of both the editor of the Brazilian edition and the head of the Scientific American business, who manages relationships with licensees.

Needless to say, I deeply regret the appearance of this fatally flawed article, which would never have been published if Scientific American had been consulted beforehand.

I am easy to find on Twitter (at mdichristina) and e-mail (mdichristina at sciam.com) if you have future questions about Scientific American.”

Esta mensagem deixa bem explícito que homeopatia não é endossada pela Scientific American. Isso acontece porque a revista é de divulgação científica, e homeopatia não é ciência. Simples. Astrologia também não é veiculada na revista. Alquimia também não.

No Rock com Ciência fizemos um programa básico sobre pseudociências e outro sobre homeopatia. Quem gosta mais de ouvir do que de ler pode dar uma conferida.

Mas tudo bem. O editor da Scientific American Brasil assumiu que errou em deixar o artigo passar. O problema é que ele atribuiu seu erro ao fato de a homeopatia ser “legalmente reconhecida aqui como especialidade médica, farmacêutica e mesmo veterinária” e porque o artigo foi escrito por alguém conhecido que fez um curso em uma instituição renomada, a Universidade Federal de Viçosa.

Ok, isso dá uma certa vergonha, mas em minha defesa eu digo que os responsáveis estão na Sede, em Viçosa (eu não, estou no Campus de Rio Paranaíba) e quando eu cheguei eles já faziam isso há anos! Sim, os cursos de homeopatia da UFV acontecem há anos. Existe um laboratório de homeopatia no departamento de Fitotecnia da UFV, liderado pelo prof. Vicente Casali, bolsista Produtividade em Pesquisa nível 1A do CNPq e líder do Grupo de Pesquisa em Plantas Medicinais e Homeopatia certificado pela UFV. Homeopatia é até uma disciplina da Agronomia, o carro-chefe dos cursos da UFV. Isto realmente assusta, porque uma considerável parte do currículo do prof. Casali não tem nada a ver com homeopatia, mas com análises de fitoterápicos e outros assuntos, embora tenha artigos sobre tratamentos homeopáticos na agricultura publicados em revistas da Embrapa! Tudo isso faz com que ele consiga sua bolsa de produtividade em pesquisa e financie seus trabalhos com fitoterápicos e homeopatia.

(Para não dizer que eu nunca fiz nada sobre isso, no ano passado recebemos solicitação para sugestões de áreas dentro do Simpósio de Integração Acadêmica, evento que reúne os alunos de Iniciação Científica, pós-graduação, extensionistas, entre outros e, nesta solicitação, constavam as áreas atuais, incluindo a homeopatia. Encaminhei uma resposta solicitando que esta área fosse retirada, uma vez que homeopatia não é ciência e não deve ser incentivada em universidades públicas, etc. Não tive resposta e a área continua lá.)

O que não dá pra acreditar é que o editor da Scientific American Brasil deixou o argumento de autoridade da UFV sobrepujar uma barbaridade escrita pela autora do texto, Nina Ximenes, que afirmou que “a homeopatia não se relaciona com a química, mas com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados”. Este detalhe foi bem discutido no blog Telhado de Vidro, do físico Daniel Bezerra. Capozzoli jamais poderia ter deixado isso passar. Não só endossou a homeopatia na prestigiada revista de divulgação científica como também endossou o uso da explicação quântica de tudo, amplamente apelada pelos pseudocientistas como se explicasse todas as suas falcatruas.

Pessoas de bem são enganadas por coisas assim. Artigos de divulgação científica tem sido utilizados para auxiliar no aprendizado de ciências nas escolas com sucesso, e isso é exatamente o seu papel. Como é que explicamos às pessoas comuns que alguns cientistas fazem ciência de péssima qualidade, esquecendo-se completamente do método científico e publicam coisas como se fossem verdades absolutas, quando pessoas que deveriam filtrar melhor tudo isso deixam passar pseudociências devido a argumentos de autoridade?

Para terminar, quem tiver interesse em saber mais sobre os efeitos da homeopatia (e sempre tem os defensores que não querem nem saber de explicar a questão do número de avogadro e da memória inexistente da água), comece lendo um artigo de meta-análise publicado na prestigiada revista médica Lancet em 2005, que afirma que a eficácia da homeopatia não é maior que o do placebo.

À Scientific American Brasil eu sugiro fortemente que, no próximo número, traga um bom artigo desmistificando a homeopatia e, assim, ajudando quem faz divulgação científica e quem ensina ciências de modo geral a ter ferramentas para erradicar pensamentos retrógrados.

Texto 2: Entre agulhas e doses de água

Entre agulhas e doses de água

Em meu último post comentei sobre a importância da divulgação científica de qualidade. Há muito tempo venho batendo na tecla da responsabilidade dos divulgadores em evitar erros, evitar vulgarizações desnecessárias, etc. Divulgação científica é complicada e difícil. Eu faço isso há uns 10 anos e não aprendi ainda. Mas há pessoas que não podem errar, pois esta é sua profissão. É o caso do editor da revista Scientific American Brasil, Ulisses Capozzoli, entre outros.

É duro, mas a novela da publicação de uma nota incentivando e endossando a homeopatia na versão brasileira da excelente Scientific American não parece que acabará tão cedo. Muitos comentam positivamente sobre a admissão do erro por parte do editor. Em um mundo onde coisas éticas não importam muito, achamos louvável admitir os erros, mas isso deveria ser lugar comum. Deveríamos perder tempo comentando quando tais coisas não acontecem. Alguns estão pedindo a cabeça do editor.

Instigado pelo amigo Daniel Bezerra e seu último texto no blog Telhado de Vidro – “O Soneto e a Emenda“, resolvi apresentar mais alguns pontos a serem considerados. Talvez esta não tenha sido o único deslize do editor e faça parte de uma síndrome que não gostaríamos que acontecesse.

Esta semana ainda tive a curiosidade de ler o blog da Scientific American Brasil. Um artigo semanal escrito pelo editor, Capozzoli. Eu realmente fiquei preocupado com o artigo “Ciência e Falsa Ciência” que comenta sobre “uma decisão do Tribunal Federal Regional da 1ª Região decidiu esta semana que apenas médicos terão direito de praticar a acupuntura”. Poderia se tratar de um excelente artigo vindo de um editor de uma revista de divulgação científica de peso. Mas apesar de fazer um bom histórico sobre a origem e aceitação desta técnica, alguns deslizes não podem passar em branco.

O reconhecimento formal dessa técnica terapêutica eficaz, a ponto de boa parte de seus detratores iniciais agora pretenderem ter exclusividade na sua prática, é apenas um capítulo mais recente da história da ciência.

Técnica terapêutica eficaz? De onde ele tirou isso? Não há evidências de que a técnica da acupuntura seja eficaz. Seja por motivos endógenos – produção de endorfinas que nunca foram demonstradas, seja por motivos espirituais – estes sim, definitivamente não demonstrados, os efeitos da acupuntura parecem não ser regulares e eficazes. Capozzoli poderia ouvir Michael Shermer, por exemplo, um colunista da Scientific American original:

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Ou então ele poderia ler alguns dos vários artigos demonstrando que a acupuntura, uma técnica que deveria servir para analgesia, como se prega regularmente, não funcionou para a Sindrome da Fibromialgia, por exemplo. Pelo contrário, um estudo de revisão recente não apenas demonstra que a acupuntura não serve como terapia para dor como também apresenta sérios efeitos adversos (Ernst et al., 2011):

 In conclusion, numerous systematic reviews have generated little truly convincing evidence that acupuncture is effective in reducing pain. Serious adverse effects continue to be reported.

Capozzoli termina seu artigo citando exemplos de falsas ciências e erros da ciência (engraçado que ele faz o mesmo em sua admissão de erro ao publicar o texto da homeopatia) e conclui com esta frase:

Mas a estupidez também é, quando se manifesta sob a forma de pensamento limitado e limitante. Comprometido mais com a camisa de força da memória que com a criatividade libertadora da inteligência, sequiosa por perscrutar os mistérios do mundo.

Alguém quer me explicar o que ele quis dizer com isso? Depois de sugerir que a acupuntura é uma técnica eficaz e comentar outros cientistas que estavam errados, como Galileu em relação a Kepler? Ninguém comentou este artigo dele. Na sequência, a Scientific American Brasil publica um artigo endossando a homeopatia e, posteriormente, Capozzoli se retrata com uma justificativa cheia de “mas”. É difícil acreditar que tenha sido apenas “um erro”, mas temos que torcer que tenha sido, pois a alternativa é desanimadora. Torcer para que tenha sido um deslize, para que Capozzoli tenha tido um mês ruim e não tenha podido ler tudo o que foi publicado este mês, pois o que ele deixou passar não deveria jamais ter sido deixado.

O problema é que sua explicação não encaixa com os fatos. Pelo menos, não deveria. Para quem tem seu currículo, observar a afirmação ridícula da autora de que “a homeopatia não se relaciona com a química e sim com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados” e dizer que isso passou porque a homeopatia é legal e bem aceita no Brasil, inclusive pelo CFM e CNPq, é demasiadamente estranho. É abandonar os fatos para aceitar argumentos de autoridade. Espero sinceramente que tenha sido uma conjunção de erros e não um vislumbre de uma linha editorial degradante para a revista.

Não sei se é o caso de trocar o editor da Scientific American Brasil. Mas é sempre bom ficar de olho e denunciar os momentos em que os responsáveis pela divulgação científica pisam na bola. Se deixarmos estas ações passarem despercebidas, daqui a pouco teremos até astrologia. Ou será que pelo menos isso Capozzoli, como astrônomo, considera pseudociência?

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