“Alopatia” é um xingamento homeopático contra a medicina [#ten23]

Autor: Eli Vieira

Fonte: Bule Voador

O texto abaixo é um email escrito em resposta a um crente na homeopatia que me acusou de ser pago pela indústria farmacêutica para promover a overdose homeopática.

“Alopatia” é o nome feio que os homeopatas usam para xingar a medicina.

Antes de mais nada, se os homeopatas querem fantasiar que tratamento de doenças é baseado em princípios metafísicos como “igual cura igual” ou “cura pelo diferente” (alopatia), estão precisando no mínimo de uma boa aula de bioquímica ou genética farmacológica.

Que igualdade ou diferença é relevante no tratamento da doença genética humana fenilcetonúria? O método atual da medicina (e a medicina, a única, é a baseada em evidências) para tratar esta doença é, a partir do conhecimento molecular quanto à enzima defectiva nos pacientes homozigotos para a mutação num gene (que é o da fenilalanina hidroxilase), recomendar uma dieta especial que evite a acumulação de um aminoácido (a fenilalanina) nos tecidos, particularmente a acumulação no sistema nervoso central que leva ao retardo mental.

Estamos falando de um caso em que a medicina parte de teorias sobre moléculas, conjuntos de átomos, para prever efeitos nas capacidades mentais de um ser humano, fazendo a diferença entre viver com retardo mental ou com as habilidades cognitivas intactas.

Tudo isso funciona porque temos evidências de causalidade entre acúmulo de fenilalanina no SNC e retardo mental nos homozigotos para mutações na hidroxilase.

Toda essa história de sucesso entre teoria e prática clínica depende de conhecimentos em bioquímica, histologia, psiquiatria e genética.

Como, eu pergunto, isso tudo pode ser reduzido a um princípio metafísico besta de “cura pelo diferente”, ou seja, pelo nome “alopatia”? A descrição que a homeopatia faz da medicina é, portanto, um reducionismo ridículo ou um xingamento invejoso.

É algo que a homeopatia, cujos princípios negam conhecimentos elementares de química (como interações de van der Waals entre macromoléculas), jamais atingirá, e por isso os homeopatas precisam recorrer a raciocínios falaciosos tão característicos de crentes dogmáticos, como a inversão do ônus da evidenciação, como o apelo à autoridade e à antiguidade (falácias “ad verecundiam” e “ad antiquitatem”) e evidências anedóticas. Confira algumas dessas falácias no texto do presidente da Associação Médica Homeopática Brasileira, Carlos Alberto Fiorot, clicando aqui.

Para aumentar o drama do apelo falacioso à autoridade, o dr. Fiorot faz questão de ESCREVER CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA ASSIM.

Ouvi por aí (e não faço questão de checar referências, exatamente como Fiorot), que quanto mais diluídas são as evidências de eficácia da homeopatia, mais forte é a crença dos homeopatas nesta eficácia. Resta dizer se este fenômeno curioso é uma expressão de uma propriedade da natureza ou de mentes dogmáticas financeiramente comprometidas com o embuste.


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