Prêmio Nobel defende homeopatia (mas isso não prova nada)

Autor: Eduardo Patriota

Fonte: Uma Visão do Mundo

Recentemente, o ganhador do prêmio Nobel de Medicina de 2008, Luc Montagnier e seus colegas alegam ter feito um experimento que mostra que uma molécula de DNA pode transmitir as informações que contém, por meio de campos eletromagnéticos, para células distantes e até mesmo para a água. Essa alegação, ainda não investigada pela comunidade científica, agradou aos ocultistas que, com sua costumeira empáfia, já veem nisso provas de que coisas como a “memória” da água e, de quebra, a homeopatia funcionam.

Em seu site sobre ocultismo, Marcelo Del Debbio desponta como um dos fervorosos defensores deste tipo de fenômeno extraordinário. Como ele mesmo diz em seu blog:

“Depois, quando eu escrever que “os ocultistas já sabiam disso desde Samuel Hahnemann” os pseudo céticos vão ficar com aquele mimimi… talvez até coloquem alguma coisa do 4chan como contra-argumento… fato é que é um começo da explicação pelos métodos ortodoxos dos passes espirituais, curas por imposição de mãos e homeopatia.

Acho engraçado que, de repente, o Prêmio Nobel vira um “idiota que não sabe o que faz” quando suas descobertas ameaçam as crenças dos outros cientistas. Tanto medo do mundo espiritual assim?”

Devo concordar com outro post de Marcelo onde ele dizia que os astrônomos não deveriam se meter em coisas que desconhecem, como a astrologia. Mas o inverso também é verdadeiro: ocultistas e esotéricos não deveriam se meter em assuntos pertinentes às ciências. Aqui, ele sai do seu campo intocável e blindado por inúmeras explicações fantásticas e mirabolantes e pisa num terreno extremamente rigoroso como o das ciências.

Primeiramente, mesmo um prêmio Nobel precisa ter seus trabalhos criticados, revisados e confirmados pela comunidade científica. O que não ocorreu ainda no caso de Montagnier. Diferente do mundo fantasioso dos esotéricos, aqui não há um líder ou sábio que diz algo e todos acreditam. Aqui a lei que prevalece é a do “ver para crer”. Segundo, o trabalho de Montagnier tem falhas graves do ponto de vista acadêmico e científico, conforme exposto pelo biólogo PZ Myers.

Dando sequencia, a chamada “memória” da água pela qual Montagnier diz conseguir replicar o DNA ainda é algo pouco estudado. Mas estudos de 2005 talvez não deixem assim os esotéricos tão contentes. Cientistas demonstraram que a água de fato tem memória (a capacidade de armazenar de algum modo propriedades de substâncias que já estiveram diluídas nela, mas não estão mais lá). Os pesquisadores também constataram que a “lembrança” dura no máximo 50 femtosegundos. Um femtosegundo é o equivalente a um bilionésimo de milionésimo de segundo (em miúdos, um intervalo de tempo ridículo). “Depois de uns 30 a 50 femtosegundos, a água perde a sua memória”, diz R.J. Dwayne Miller, da Universidade de Toronto, no Canadá, autor principal do estudo que sai hoje na revista científica “Nature”.

Isso significa que aquele remedinho homeopático que você compra não retém nada do que ali foi diluído um dia. Biologicamente, para a ciência de hoje em dia, homeopatia só funciona como placebo. Mas as pesquisas e os debates neste campo são saudáveis. Contudo, alegações extraordinárias precisam de evidências igualmente extraordinárias. Não foi desta vez que a ciência provou a existência de um dos elementos do mundo fantásticos dos ocultistas e esotéricos.

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